
Com o consumo consciente e a negação à fast fashion em pauta, os brechós voltam a ter relevância em São Paulo. A maior cidade do país conta com centenas de lojas de segunda mão, e a reutilização de peças que já pertenceram a outras pessoas ganha relevância para novos públicos.
No centro de São Paulo e em uma das ruas mais famosas do Brasil, uma galeria de entrada modesta esconde um estabelecimento cujo significado e importância contrastam a seu tamanho. O Brechó Tá é uma das dezenas de pequenas lojas presentes no complexo situado na Rua Augusta, e sua existência e permanência são sinais de que a cultura dos brechós segue ativa na maior cidade do país.
Ana, a dona da loja, esgueira-se entre araras e manequins para receber a reportagem, finalizando o atendimento de uma cliente rapidamente. A senhora sorri ao apresentar-se e contar a história do lugar que comanda há três anos. “Abri com a ideia de vender minhas roupas antigas, porque eu tinha mudado meu estilo”, conta.
Sua amiga e co-fundadora do Tá, Mariângela, “amou a ideia” e disse que queria entrar no projeto. “Fizemos um brechó super pequenininho, uma galeriazinha. O bicho bombou e hoje a gente tem uma loja”, relata Ana, que, hoje, cuida dos negócios sozinha. “Infelizmente ela teve que sair porque foi morar longe. (...) Deu super certo, eu tô a quase três anos e adoro”, confessa.
O brechó de Ana assemelha-se a uma loja de roupas comum, com araras, espelhos, manequins e uma vendedora simpática. Pequeno e confortável, o espaço dá a impressão de que quem compra os produtos já a conhece, e a possibilidade de prova e a variedade de estilos faz com que a identificação seja fácil.
Sobre a curadoria das roupas vendidas no Tá, Ana conta que é ela quem faz, e que “tem pra todo mundo”. “Tem P, M, G, GG. Você vai no brechó e pode ter todos os tamanhos, são super legais. Se não cabe em você, a gente arruma algo pra você, que você goste e que fique legal. Eu ajudo a pessoa a se vestir e a escolher”, relata.
No comércio de Ana, as peças são vendidas em “parceria” com os antigos donos, o que ela define como “consignado”. Quando uma peça é vendida, uma porcentagem do lucro vai para quem a “doou”. “Quando eu ganho, a pessoa ganha também, todo mundo fica feliz”, diz.
Brechó tá?




“As roupas são super bonitinhas, é tudo novo ou seminovo. É um brechó muito caprichado. Eu lavo todas as roupas”, conta, com mais sorrisos e visível orgulho. “Eu tô no Baixo Augusta, que é um lugar que eu amo, que tem uma diversidade incrível. Adoro esse lugar, passa gente pra caramba. O brechó no Baixo Augusta tem mais a ver do que em qualquer outro bairro da cidade”, opina.
O Brechó Tá faz parte da tendência cada vez mais em evidente do resgate de brechós, que, nas últimas décadas, deixaram o estigma de locais antigos com peças antiquadas para habitarem ambientes modernos e serem alternativas sólidas de consumo sustentável. Os preços baixos, a variedade e a qualidade fazem com que peças de primeira mão percam a prioridade na visão dos consumidores.
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Brechó Central
Há poucos quilômetros do Tá, próximo ao metrô República, o Brechó Central faz contraste à história de Ana e prova que a diversidade das lojas de roupas de segunda mão vai além da modelagem de suas peças. Similar a qualquer loja de departamento, o estabelecimento exibe araras, centenas de cabides, grandes espelhos e música ambiente que deixa o cliente a vontade, seja para “dar uma olhadinha” ou para passar horas experimentando visuais.
O gerente Felipe, de 26 anos, recebe com sorrisos e hospitalidade cada um de seus clientes, que não se encaixam em nenhum perfil pré-estabelecido. “Hoje em dia, eu vejo que o nosso público está bem misto”, conta. “Ontem, por exemplo, eu atendi uma senhora de 58 anos. Ela chegou, olhou uma peça, só que ela foi vendo blusa, calça, jaqueta e no final acabou gastando bastante até. Como também tem jovens que às vezes vem comprar roupas para ir em um show, em uma balada. Eu vejo que, atualmente, as pessoas buscam coisas de qualidade, peças boas e com valor justo.”
O Central é o segundo brechó de Felipe e Carla, a dona. Anterior a ele, o Moeda de Troca, agora sediado na Vila Mariana, surgiu com o propósito de fazer uma espécie de escambo entre peças — o cliente leva suas roupas, atribui valor a elas e, conforme elas são adquiridas por outras pessoas, o antigo dono recebe pontos para trocar por outras roupas.
“Íamos nos mudar para a Zona Sul, e pensamos ‘o que faremos com a loja do centro?’ Aí veio a ideia de fazermos o brechó com peças de valores mais acessíveis, para não deixar de utilizar o espaço”, conta Felipe. Em seguida, o gerente ressalta o diferencial de seu ambiente de trabalho: a organização e o conceito de loja, fugindo do estereótipo atribuído ao brechó.
“Quando a gente fala na palavra brechó, vem na nossa cabeça aquele conceito de casa velha, com peças misturadas, onde você não tem nada muito separado por categoria. Aqui, nós tentamos trazer essa parte de termos peças boas, com valor justo e também trazendo um conceito de espaço, vamos dizer assim.. de uma loja, mesmo!”, afirma. “A gente busca trazer uma organizada para que as pessoas encontrem mais fácil o que querem.”
A avaliação de quais peças entrarão no acervo da loja é feita por uma equipe de avaliadoras, presentes nas duas unidades da franquia. “A gente sempre preza por peças que não estejam manchadas ou com fios. (...) Precisa estar em bom estado pra que a gente consiga fornecer para o nosso cliente roupas de qualidade, mas também com valor acessível”, conta.
Slow Fashion
A retomada do brechó como tendência de consumo e modelo de negócio condiz com a tendência da slow fashion. O movimento vem ganhando força nos últimos anos por negar a fast fashion, tendência de consumo em que os produtos são fabricados para serem comprados e descartados o mais rápido possível, como em coleções de roupas renovadas a cada semana ou quinzena.
“Antes, as pessoas consumiam roupas de forma mais duradoura”, disserta a designer de moda Márcia Vieira Nogueira. “As pessoas contratavam costureiras e isso era o normal. Desde os anos 90, o fast fashion veio e as pessoas ficaram alucinadas pelo consumo. Ficou mais difícil consumir de uma forma mais responsável”, comenta.
Em prol da sustentabilidade e da economia, não apenas de dinheiro como de recursos, a negação à cultura do consumo desenfreado é uma forte motivação de quem busca outras alternativas além do varejo tradicional. “Comprar de pequenos produtores, um estilista que faz sua peça, escolher em menor quantidade já é slow fashion. É sobre responsabilidade”, argumenta Márcia.
Na lógica do slow fashion, o consumidor se preocupa com o processo de produção além das vitrines. A consciência para com a peça que o vestirá vai desde a demanda de que os resíduos sejam descartados com o mínimo de impacto ambiental possível até sobre o quanto os trabalhadores envolvidos foram remunerados, ou seja, o pagamento justo da mão de obra.
Márcia usa como exemplo peças de lojas de departamento, como “camisetas de 29 reais”. “É mais barato que sair, ir ao cinema, comprar um lanche. Isso não é normal. Os tecidos do fast fashion duram muito pouco, não são feitos para durar. No slow fashion, você consome uma peça que foi pensada para ser durável e natural”, afirma.
“Eu procuro comprar modelagens que são mais perenes. Blazers, saias de corte que eu sei que vou usar daqui há 5 anos, que não têm uma modelagem que daqui a pouco todo mundo usou e ninguém mais quer usar, que dura 6 meses de moda. Não é mais legal comprar uma peça que dure mais, que você vai ter mais carinho, do que uma que você vai usar duas, três vezes, pode abrir um buraquinho e você vai descartar?”, questiona a designer.

Márcia
"As peças que eu tenho são muito bem pensadas, então dificilmente eu compro, seja brechó. Geralmente eu dou o que eu comprei, uma peça ou duas para não encher o meu guarda-roupa, mas adoro brechó."
Quem consome?
Com o avanço da cultura de influenciadores digitais, blogueiras e instagrammers assumem papéis próximos na vida de seus espectadores — influenciando, também, na relação deste novo público com a moda, relação essa que costumava ser ditada por agendas menos individuais, como a da televisão e das revistas.
Bruna Rosa é produtora de conteúdo e aproveita o espaço que conquistou nas redes sociais para incentivar o consumo sustentável e, principalmente, a cultura de brechós. Em seu Instagram, com mais de 30 mil seguidores, a blogueira dá dicas de moda, sugestões de looks e mostra de maneira prática que consumir com responsabilidade sem perder o estilo é possível.
Ela conta que seu primeiro contato com o modelo de consumo foi quando encontrou um bazar em seu bairro, encontrando uma jaqueta “perfeita” por 4 reais. “Eu não costumava comprar por falta de oportunidade, mesmo”, diz Bruna. “Hoje, compro em brechós e bazares e organizo um, que acontece de meses em meses.”
A influenciadora é plus size, e relata que sua paixão pelos brechós foi incentivada, também, pela dificuldade em encontrar tamanhos maiores em lojas. “Foi assim que eu me apaixonei pelo estilo vintage em mim”, confessa a produtora de conteúdo, que mostra diversas combinações de peças com influência em décadas passadas em suas redes sociais. “Antes, eu só acompanhava imagens desse estilo, mas não tinha aderido.”
“Nós não podemos julgar quem consome fast fashion, já que a informação não chega a todos. mas podemos falar sobre e mostrar como é interessante esse mundo”, argumenta a influenciadora, cliente de carteirinha de brechós. “Além de que dá sim para comprar bem em lojas fast. O consumo sustentável, pra mim, vale tanto para brechós quanto lojas: comprar bem, do seu estilo e sem se apegar a moda do momento”, finaliza.
"Patricinha ama brechó"
Daniela Dornellas é curadora do Fashion Meeting, encontro anual de entusiastas por moda e seus desdobramentos, e se define como uma “brechozeira de coração”.
Para ela, a relação com essa modalidade de consumo vai muito além do óbvio, e estabelece um sentimento de conscientização de vários fatores sociais, com uma singularidade: cada peça ganha uma nova chance no guarda-roupa de alguém.
"Eu sempre acreditei que brechó é uma filosofia e é moda”, afirma. “Há o princípio de sustentabilidade, econômica criativa e, acima de tudo, a oportunidade dar sequência a uma peça. Uma peça existe e tem história, e essa história não é (...) ‘ah, é roupa de gente que morreu.’ Não! É roupa de gente que renova o closet, de gente que pensa no mundo, é roupa de gente que tem um propósito e acima de tudo é fashionista”, opina a curadora.
Daniela conta ainda que sua relação com as lojas de segunda mão aborda ainda o apego pelo contexto histórico propiciado por elas. “Quando eu viajo (...), eu quero conhecer os brechós daquele lugar, porque através disso eu absorvo muito a cultura, consigo entender o que é tendência pra aquele povo”, revela. “Mais do que ir a um museu ou um ponto turístico. Eu procuro entender o ser humano, a pessoa e a história através do que encontro nos brechós.”
Com segurança e bom humor em seu tom de voz, a curadora apontou ainda uma particularidade no público dos brechós. "Patricinha ama brechó! Patricinha compra e vende em brechó”, exclama. De acordo com ela, a classe geralmente associada à compra de grandes marcas começa a entender que há outras alternativas para reciclar seu armário, e que custo benefício é uma questão a ser colocada em pauta.
“Eu só apoio a questão dos brechós. A gente tem uma sequência disso tudo, não é só vender peças e fazer girar um mercado paralelo ao de novos. Tem uma história por trás. Os brechós apoiam também várias instituições com peças que eventualmente não tenham fluxo dentro de loja”, comenta.

Consumo
“Nós não podemos julgar quem consome
fast fashion, já que a informação não chega a todos. mas podemos falar sobre e mostrar como é interessante esse mundo”
O futuro dos brechós
Ao passo que os brechós ganham novos significados, contextos e motivações, o número de estabelecimentos e proporção de consumidores também cresce, tornando intuitiva a previsão de que esse tipo de loja conquistará cada vez mais espaço nos próximos anos.
Para a designer de moda Márcia Nogueira, um dos fatores que contribuirá para este crescimento é o e-commerce, que facilita o acesso dos consumidores a todo tipo de roupa vendida.
Além disso, a designer aponta que um dos trunfos dos brechós é que a possibilidade de resgate da moda de outras décadas através da curadoria de qualidade realizada por esses estabelecimentos. “Procuram peças dos anos 80, 90, 2000, mas que as pessoas queiram utilizar. (...) Que não saíram de moda. Porque a moda é muito cíclica, principalmente entre as décadas”, comenta.
“O brechó encontra peças duráveis. (...) E há peças que já foram feitas... Você não está induzindo as empresas a fazerem mais. Você consome algo que não precisará ser reposto. Tudo isso é legal do brechó. Você pode usar uma peça que já foi feita, que tem um histórico por trás, possivelmente de muito afeto. E você vai escolher de novo aquela peça”, finaliza.




Reportagem produzida por:
Bárbara Alves, Evelyn Mackus, Luiza Hess, Natali Mamani e Vitor Balciunas.










